sábado, 31 de janeiro de 2009

Fio da comunicação.

Rodolfo - Escuto o metralhar inacessível do relógio, avisando-me num ritmo agonizante que as horas passam e não mais voltam. Amarra meu pé no seu pendulo e me sacode pra lá e para cá. Preso no seu ciclo sou arrastado para a morte, esfolando a camada do sonho que cobre a podre carne. Fazendo-me lembrar que hoje eu sou e amanhã não sou mais como sou.

André - Um constante movimento. Você movimenta o mundo, o seu mundo. Às horas te pertencem. A morte te espera. Você já pode estar morto. Sinta nas entranhas a dor da angustia existencial. O homem que teme a morte, teme a vida. Carne podre. Resto podre da carniça que foi devorada pelo rato do esgoto que habita em seu quarto. Blasfêmia. Procura o seu caminho pangarofo. Esse não é o seu mundo. Mata-te e faça-me sorrir.



Rodolfo - Vou rasgar o bucho e te mostrar as entranhas. Vai sentir o sabor de ver-me quase morto a estrebuchar no chão. Vai me ver morto partindo pela janela do olho fora da órbita. Pensando, mal conseguia chegar ao chão. E então vou te querer morto também, esquartejado com uma parte em cada casa. Quero seus dentes pra fazer um colar com o qual farei rituais. Pancada na gripe, no vírus que te faz vivo. Faz-me rir!

André - Rasga-te homem. A sua loucura saíra da moradia. Como um fantasma que assusta a inocente criança. Eu morto valeria uma estrela, pois estou distante e perto da maldade. Sou sincero, como o destino que destina a sua cruel morte. Cala-te e morra em paz.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Hospital São Vicente de Paula

Estou certo da loucura que me habita.
Sinto nas entranhas o doce gosto amargo da morte.
Delírios, perturbações e insônia.
Prometazina, haldol, levozine
Álcool, merla e heroína.
Doses diárias de todas essas drogas.
Sinto-me tão calmo...
Escuto o canto do relógio
Tic-tac... Tic-tac...
Inerte,
Sinto apenas o peso das minhas mãos.
Para onde levarei essa carcaça
Que a loucura faz de moradia.
Não recordo o meu nome
Já ouvi me chamarem de Esquizofrenia.
Um bonito nome.
O homem que dorme na cama ao lado
Chama-se Borderline.
Grades e arames farpados
Separam-me do outro mundo.
As pessoas distantes olham assustadas.
Falta apenas uma placa:
"Não dê comida aos animais"
Sou o resto do mundo ou o resto de todo mundo?
Lá vem o pequeno copo branco.
Ficarei por horas sem pensar.

Rédeas soltas

Solto as rédeas da razão
E deixo ir solto
Em um mar de prazeres,
Dores e mistérios.
Voando vou tateando,
Batendo nos buracos
E caindo nas paredes.
Escorado no abismo,
Dentro da cápsula
De tantas outras vidas

Não quero ser
Tudo aquilo que sonho.
Meus desejos não devem ser realizados.
Não consigo ver daqui a luz
Ela me esmaga
Como a força dilaceradora da verdade

Morto estaria se doente não fosse
Morto estaria se louco não fosse
Morto estaria dentro da vida

O veneno anda na veia
O ralo suga o merda
Vede o venoso na flor
O aniversario da dor
Enchente das magoas

Panela sem tampa.

Por horas fiquei pensando.
Logo o cheiro de merda
Foi perfumando o ar,
Precipitando a queda
inevitável!

O sangue e os miolos
Se espalharam pelo chão.
Levando-me
A uma melhor conclusão.

Queria escrever coisas belas,
Mas de nada vale
Se não ver beleza
No movimento escroto da humanidade.

Reconheço-me
Dentro da panela sem tampa.
Cozinhando ao fogo alto,
Descobrindo quem é quem.
Não estou morto (incerto)
Estou vivo dentro da certeza da vida.