quarta-feira, 4 de março de 2009

Cidade natal...

Com os pés descalços eu caminhava livremente sobre as ruas de terra. A poeira castigava-me e raramente percebia-me limpo. Ansiosamente esperei as ruas serem asfaltadas. A cidade foi crescendo e novos comércios foram surgindo. Desde aquela época busco compreender o sentido do nome da minha região. Muitos conhecem somente pela sigla “P-sul”, que significa: “Setor Presidencial Sul”. O ultimo presidente que andou por essas ruas era um bêbado que saia gritando: “Eu sou o presidente Brasil”. Ele liderava um grupo de alcoólatras conhecidos popularmente como “Escolinha da cachaça”. Talvez se ele tivesse sido um líder sindical, teria realmente se tornado presidente do Brasil. Faltava-lhe também um dedo, mas era em seu pé. O estranho é que o Setor Presidencial Sul localiza-se na Ceilândia, uma região administrativa do Distrito Federal. Ceilândia significa: "Campanha de Erradicação de Invasões'".
Assistir televisão é uma difícil tarefa. Os chuviscos tomam conta da tela, mas nada que impeça as pessoas perderem o final da novela. Não pense em mudar de canal e colocar na BAND, esse é um canal “rádio” é possível apenas escutar.

Os telhados mostram as “riquezas” dos habitantes. Basta olhar e observar as pessoas que possuem antena parabólica. São poucos os que têm televisão por assinatura. Mas vem aumentando, tem um sujeito que trabalha em uma empresa de televisão por assinatura, e por apenas 200 reais, você pode ter esse luxo pelo resto da vida pagando uma única vez. O único problema é se for descoberto, pois é um crime de pirataria.

São muitos os comércios, mas em sua grande maioria apenas diferem no nome. São bares, escolas, cabeleireiros, padarias, mercados, locadoras, feiras, igrejas e ambulantes que vendem CDs e DVDs piratas. A maior concorrência acontece entre as igrejas e entre os cabeleleiros. As igrejas compram paginas inteiras do guia comercial. Essa foi à maneira encontrada por eles para “recrutarem soldados para o Exercito de Cristo”. Esse é um guia exclusivo para comerciantes, e parece estar dando certo, pois todos os anos uma nova igreja aparece nas paginas.

Existiu uma época, não me recordo à data, que raramente as pessoas saiam de casa. Aqui era conhecido como "caldeirão do inferno”. Uma gangue dominava o Distrito Federal. Os lideres da gangue moravam no P-sul. Mas encontramos a “salvação”, eis que surge um padre que bebê e fuma com o sagrado dizimo do povo. O engraçado e que esses mesmos sujeitos que estendem as mãos e pedem bênção ao padre, lançam um olhar furioso aos pobres bêbados da “Escolinha da Cachaça” que são liderados pelo “presidente”.

Nas avenidas passam todos os tipos de carro, de fusca a importado. Depois que inventaram o financiamento em 60 vezes, coincidentemente, aumentou o numero de automóveis. Tem pessoas com o telhado furado e um carro na garagem.

O cheiro agradável da capital do país é responsabilidade do P-sul. Temos a segunda maior usina do mundo. Mas não pensem que ela fabrica perfumes, pois se trata de uma usina de lixo. Algumas casas localizam-se à apenas uma pista da usina de lixo. Mas elas não se incomodam mais com o fedor, pois sofrem de fadiga olfativa.

Recentemente descobriram fósseis nas redondezas do P-sul, que datam mais de dez mil anos. Esse lugar está sendo preservado, e a maioria da população nem sabem desses achados. Estão vindo historiadores de vários estados. Isso significa que antes de habitarmos esse maravilhoso lugar, já existiam outros moradores. Espero que eles tenham tido o mesmo amor que eu sinceramente sinto pelo P-sul.

Adoro ir até a varanda e admirar o pôr do sol. Como cenário de fundo existe um vasto e exuberante cerrado nativo. Faz muito tempo que não vou visitar os lindos córregos. Espero que ainda continuem limpos como em meus tempos de criança.

domingo, 1 de março de 2009

Critica alienada

Sinto-me fraco
Estou desesperado.
O mundo está em guerra
Esqueçam a minha tristeza.
Em tempos de ditadura
Desejavam a democracia.
Libertaram as expressões
E levaram os pensamentos.
Na escola me mandaram
Assistir ao jornal,
Um homem de cabelo branco
Que lembrava meu avô
“Sabiamente” dizia-me como pensar.
Anos “alienado”,
Ainda bem
Que não preciso ir à escola.

Deram-me coca-cola
E maço de cigarros.
Que acabe o capitalismo
E a nicotina.
Tempos atrás
Era elegante a fumaça branca
Os homens fortes e intelectuais
Apareciam fumando.
Agora terei que parar.
Agora aprece
Dentes podres e pulmão estragado

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

"Era do vazio"

Sinto um enorme prazer em meus momentos de solidão. Não sou um pote vazio, muitos pensamentos e sentimentos que me habitam, são vivenciado no momento presente – aqui e agora. Transpareço ao mundo as minhas verdades, pretendendo sempre ser vil. Rotulam-me como um egoísta, eu prefiro pensar que sou um homem em busca de si mesmo. Isso me permite conhecer os "fios" em que posso me equilibrar.

Em uma sociedade vazia, a solidão demonstra ser algo terrível. Pois o homem sozinho pensa sobre si. Esse ser que pensa sobre as coisas que o habitam sente um enorme desconforto, logo procura algo para se distrair. Quem sabe uma musica que traga prazer e alegria. Os pensamentos entram por todas as esquinas, extremamente conflituosos. A insônia e real, não se pode assim dormir, mesmo fechando com força os olhos, não consegue esquecer esses problemas. Vá e pegue um copo com água para ajudar a descer o tranqüilizante. Tornou-se simples dormir, mas os pesadelos brotam e atormentam a “traquilizada” noite. Quando acordar logo esquecerá do sonho, é muito cedo, o homem precisa trabalhar. E necessário um sorriso no rosto, isso evita que as pessoas perguntem o que ele sente dentro de si. Perguntam: “tudo bem?” ele responde que sim, pois do contrario teria que responder o fugir da pergunta que questiona o “não estar bem sempre esperado”. Entendo, e difícil confiar nas pessoas. Então vá se confessar, ou quem sabe, pagar um profissional, eles possuem um código de conduta que garante o sigilo, se publicarem e fácil processá-los.

Um momento de silêncio é para mim tão valioso. Sinto os meus pensamentos, vou buscando compreender algumas resistências. Às vezes trazem uma enorme dor, e difícil pensar na morte, na doença ou em pequenos problemas. Antes temia perder um grande amor. Imaginava que não poderia viver sozinho e precisava do "ser amado". Fui aprendendo a respeitar os momentos, que o outro não é obrigado a me amar, e que às vezes, um contato simbiótico ou rotineiro é responsável por grandes conflitos amorosos. E, não sendo vivenciados pelos homens vazios, torna-se melhor desatar o nó.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Fio da comunicação.

Rodolfo - Escuto o metralhar inacessível do relógio, avisando-me num ritmo agonizante que as horas passam e não mais voltam. Amarra meu pé no seu pendulo e me sacode pra lá e para cá. Preso no seu ciclo sou arrastado para a morte, esfolando a camada do sonho que cobre a podre carne. Fazendo-me lembrar que hoje eu sou e amanhã não sou mais como sou.

André - Um constante movimento. Você movimenta o mundo, o seu mundo. Às horas te pertencem. A morte te espera. Você já pode estar morto. Sinta nas entranhas a dor da angustia existencial. O homem que teme a morte, teme a vida. Carne podre. Resto podre da carniça que foi devorada pelo rato do esgoto que habita em seu quarto. Blasfêmia. Procura o seu caminho pangarofo. Esse não é o seu mundo. Mata-te e faça-me sorrir.



Rodolfo - Vou rasgar o bucho e te mostrar as entranhas. Vai sentir o sabor de ver-me quase morto a estrebuchar no chão. Vai me ver morto partindo pela janela do olho fora da órbita. Pensando, mal conseguia chegar ao chão. E então vou te querer morto também, esquartejado com uma parte em cada casa. Quero seus dentes pra fazer um colar com o qual farei rituais. Pancada na gripe, no vírus que te faz vivo. Faz-me rir!

André - Rasga-te homem. A sua loucura saíra da moradia. Como um fantasma que assusta a inocente criança. Eu morto valeria uma estrela, pois estou distante e perto da maldade. Sou sincero, como o destino que destina a sua cruel morte. Cala-te e morra em paz.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Hospital São Vicente de Paula

Estou certo da loucura que me habita.
Sinto nas entranhas o doce gosto amargo da morte.
Delírios, perturbações e insônia.
Prometazina, haldol, levozine
Álcool, merla e heroína.
Doses diárias de todas essas drogas.
Sinto-me tão calmo...
Escuto o canto do relógio
Tic-tac... Tic-tac...
Inerte,
Sinto apenas o peso das minhas mãos.
Para onde levarei essa carcaça
Que a loucura faz de moradia.
Não recordo o meu nome
Já ouvi me chamarem de Esquizofrenia.
Um bonito nome.
O homem que dorme na cama ao lado
Chama-se Borderline.
Grades e arames farpados
Separam-me do outro mundo.
As pessoas distantes olham assustadas.
Falta apenas uma placa:
"Não dê comida aos animais"
Sou o resto do mundo ou o resto de todo mundo?
Lá vem o pequeno copo branco.
Ficarei por horas sem pensar.

Rédeas soltas

Solto as rédeas da razão
E deixo ir solto
Em um mar de prazeres,
Dores e mistérios.
Voando vou tateando,
Batendo nos buracos
E caindo nas paredes.
Escorado no abismo,
Dentro da cápsula
De tantas outras vidas

Não quero ser
Tudo aquilo que sonho.
Meus desejos não devem ser realizados.
Não consigo ver daqui a luz
Ela me esmaga
Como a força dilaceradora da verdade

Morto estaria se doente não fosse
Morto estaria se louco não fosse
Morto estaria dentro da vida

O veneno anda na veia
O ralo suga o merda
Vede o venoso na flor
O aniversario da dor
Enchente das magoas

Panela sem tampa.

Por horas fiquei pensando.
Logo o cheiro de merda
Foi perfumando o ar,
Precipitando a queda
inevitável!

O sangue e os miolos
Se espalharam pelo chão.
Levando-me
A uma melhor conclusão.

Queria escrever coisas belas,
Mas de nada vale
Se não ver beleza
No movimento escroto da humanidade.

Reconheço-me
Dentro da panela sem tampa.
Cozinhando ao fogo alto,
Descobrindo quem é quem.
Não estou morto (incerto)
Estou vivo dentro da certeza da vida.